A Night in Tunisia quarta-feira, abr 29 2009 

Ensaio crítico sobre A night in Tunisia do Jazz Belém; Há uma mudança de harmonia e de ritmo. O clique afrocubano cai em direção as tendências do cool jazz. A harmonia tradicional da música de Gillespie, começa com a seqüência de Eb7 (Mi bemol com sétima) e Dm7(Ré menor com sétima), que consiste harmonicamente falando em um sub 5 de um sexto grau relativo menor natural. A função de um dominante substituto, é criar o mesmo trítono do dominante convencional, e criar função de atrito em busca de um repouso na resolução. Justamente por isso, decidi incluir um dos meus acordes favoritos e mais presentes no meu pensamento musical. Substituo o Eb7, pelo Eb7M com função de acorde subdominante. No caso acabo por fazer o modo lydio e o frygio, aos não acostumados com a nomenclatura, o terceiro e o quarto grau de uma escala maior. Assim podemos por exemplo improvisar em arpejos de brooken chord em sol menor ou em Dm6. Inversões de acordes, e alterações de distancias de pentatonicas. Um detalhe curioso é notar que o há uma organização natural do posicionamento do som, e o Alexandre no caso, não sabia o tema, o que não impediu um dialogo entre a melodia original, os improvisos e os diálogos entre sax e piano, com algumas pequenas alterações rítmicas ou de efeito simétrico. A idéia de fazer a introdução de 2 5 do Dm7 na introdução não lembro de quem foi, repetimos por quatro vezes, Com viradas de resposta do piano enquanto baixo e sax mantinham basicamente a mesma linha melódica que o piano comentava fraseando paralelamente harmonizando com as superposições em 3 vozes de terça sétima e tensão. No caso, foi junto com a gravação de All of Me, a tentativa mais de execução com sensibilidade por parte dos músicos que me acompanharam. Havia de certa forma mais calma na execução, e tempo para os acordes do piano respirarem diante do chão de arpejos que o baixo sentenciava. Graças às vassourinhas do Henrique tivemos um clima mais tradicional, e os quiques do piano respondiam o sax na parte B. A seqüência de acorde da parte B, é uma seqüência de dois dois cinco menores. O primeiro um Am7(b5) e D7(b9), resolvendo no Gm7, o segundo a mesma ocasião um tom a baixo, portanto, o Gm7 acaba se transformando em Gm7(b5), C7(b5) resolvendo dessa vez no F7M e retornando ao dois cinco pro riff A: No primeiro lance o Alexandre faz a melodia, mas depois não se recorda, por sorte o piano que virava e pulava por sobre os contratempos, reconheço embora assuma proposital o ato, de que, acertei que a melodia respondesse o complemento do tema com uma frase desses 3 acordes. Já o interlúdio final, acabou que o sax sugeria e o piano complementava o tema… o sax fixava o riff principal e o piano arpejava a melodia completa. Até que na queda final, quando na versão original o Gillespie solta frases rápidas, o Alexandre opta por suingar um solo macio . Os acordes todos foram superpostos, não repeti as inversões uma vez se quer, por isso ficou um ar flutuante para o clima dos arpejos do baixo. O alecandre por ora acelera suas frases e altera o suficiente para que na parte B o piano possa assumir algumas frases mais claras, já que até então só foi um comentarista da música. A abordagem do solo é um tanto quanto esquisita, porque opto por uma escala que o jazz não costuma usar, que é a menor harmônica, nesse caso do tom que estamos, Dm. A improvisação mistura as pentatônicas de Am, Dm e Gm e suas possibilidades blues e beepbop. Há um momento em que fico brincando com as possibilidades da menor melódica em seu intervalo com velocidade e por um momento dou um salto de Tonica e quinta… soa bem impactante, é uma parte que me agradou, fica entre 3:00 e 3:07. um salto que quebra a velocidade da menor harmônica, e depois alterações na escala em função do retorno a melodia. Foi muito bom ter gravado, há mais de um ano esse vídeo, e gostaria de gravar outros se possível, com a mesma proposta de levada e feeling. Alterando as harmonias originais, o ritmo, sem perder o caráter de nossa personalidade como músicos. O espaço é grande para todos, e o som não se propaga no vácuo, esse som foi uma tentativa de incentivo de criar algo novo, talvez algum dia as obras voltem a funcionar. O fim foi a volta ao tema, com a finalização da música no riff que começou com comentários do piano e a frase derradeira do sax, terminando no estalar de caixas do Henrique.

O nada não existe. segunda-feira, abr 20 2009 

Acreditava um pergaminho medieval encontrado na Fraschetta

que determinada a existência pelas mãos do criador,

não poderia-se conceber um perfeito labor;

se algumas partes ficassem sem ser feitas ou à sarjeta.

—–

De tal forma, sustentava em um Latim eloqüente, muita veemência,

Concatenando a lógica com a clemência, a urgência com a prática.

A teoria difundia do saber difundido, e poesia é como a matemática,

As cegonhas traduziriam à vida – legada a infância à tradição de demência.

—–

Se Deus é perfeito, sustentava em vão sobre o vão o padre;

- O Nada não existe! o que diria sobre isso Jean Paul Sartre?

- “O vácuo é invenção científica, Fugaz brasão!”

——-

Se tudo é divino, tudo tem de prosseguir existindo,

Concomitante, do último instante aos primeiros dias.

O que desmentiu um só momento é fuga e é vão.

O Paradoxo segunda-feira, abr 20 2009 

Quando o aforismo vai violentamente contra a opinião comum, de tal modo que à primeira vista parece falso e inaceitável, e só depois de uma judiciosa redução de sua forma hiperbólica parece portador de alguma verdade, aceitável com esforço, temos então o paradoxo.

“Etimologicamente é paradoxo aquilo que vai parà ten doxan”,(ECO,2003 p.65) isto é, alem da opinião comum. Portanto, o termo originalmente buscava explicar alguma opinião distante da crença de todos, estranha, bizarra, inesperada.

Os paradoxos da lógica ocupam um lugar de destaque, por serem afirmações auto-contraditórias, “das quais não se pode provar nem verdade nem falsidade”.

Eco não especifica de onde ele retirou essa definição, apenas diz ser de um filólogo denominado Battaglia, sem citar página, ano ou editora. No entanto, a definição é esclarecedora a cerca do paradoxo

Tese, conceito, afirmação, sentença, piada, no máximo formulada no âmbito de um discurso ético ou doutrinário, que contrasta com a opinião difusa ou universalmente aceita, com o bom senso e a experiência comuns, com o sistema de crenças a que se faz referência ou com princípios ou conhecimentos que são dados como adquiridos ( e com freqüência não possui valor de verdade, reduzindo-se a um sofisma, criado por amor de excentridades ou para dar mostras de habilidade dialética; mas pode também conter, sob uma forma aparentemente ilógica e desconcertante, um fundo de validade objetiva destinado a afirmar-se contra a ignorância e a precipitação de quem segue acriticamente a opinião da maioria.

“A história da literatura é rica em aforismo e um pouco menos rica de paradoxos”  obviamente pelo grau de dificuldade da construção de cada sentença. Um autor que consegue extrair paradoxos de suas reflexões é porque aprofunda um assunto muito alem da perspectiva comum, ou da simples inversão dessa perspectiva.

O aforismo paradoxal por sua vez, não pode ser cancrizado. Seu oposto quando invertido, chegam em uma oração sem sentido conexo com a realidade.

PARADOXOS

Novamente recorrendo ao artigo de Umberto Eco temos exemplos de dois grandes autores de paradoxos, o primeiro é J. Stanislaw Lec.[1]

Se se pudesse descontar a morte dormitando-a em prestações!

Sonhei a realidade ! que alivio despertar.

Abra-te Sésamo- quero sair !

Quem sabe o que Colombo não teria descoberto se a América não tivesse barrado seu caminho!

Horrível é o babador espalmado de mel.

O camarão enrubesce depois da morte. Que fineza exemplar, em uma vítima.

Se pretendeis derrubar os monumentos, poupai os pedestais. Sempre podem servir.

Possuiu a ciência, mas não a deixou grávida.

Em sua modéstia considerava-se um grafômano. Ao invés disso, era um delator.

As fogueiras não iluminam as trevas.

Pode-se morrer em Santa Helena sem ser Napoleão.

Abraçaram-se tão apertado que não sobrou espaço para os sentimentos.

Apergia a cabeça com cinzas de suas vítimas.

Sonhei com Freud. O que significa ?

Freqüentar anões deforma a espinha dorsal.

Tinha a consciência limpa. Nunca usada.

Mesmo em seu silêncio havia erros lingüísticos.

Lec invertendo a situação comum, acaba por em todos os exemplos demonstrados criar um paradoxo. Oscar Wilde[2], também é autor de alguns paradoxos autênticos e podemos tentar com o método de cancrizar reconhecer a legitimidade :

O egoísmo não consiste em viver como nos parece, mas em exigir que os outros vivam como nos parece.

É muito mais prudente pensar mal de todos até que, naturalmente, se descubra que uma pessoa é boa, mas hoje em dia isso exige uma série infinita de investigações.

O feio e o estúpido passam melhor do que os outros neste mundo: podem permanecer sentados confortavelmente e seguir a comédia de boca aberta. Nada saberão da vitória, mas é-lhes poupada a experiência da derrota.

Uma pessoa sensível é aquela que, tendo calos, pisa sempre os pés dos outros.

Todos aqueles que são incapazes de aprender são postos a ensinar.

Toda vez que as pessoas estão de acordo comigo tenho a sensação de estar errado.

Um homem falado tem sempre alguma coisa de atraente.

Afinal, ele deve ter alguma coisa.

Todo grande homem hoje em dia tem os seus discípulos, e é sempre Judas a escrever-lhe a biografia.

Posso resistir a tudo, exceto às tentações.

A falsidade é a verdade dos outros.

O único dever que temos para com a história é o de reescrevê-la.

Uma coisa não é necessariamente verdadeira porque um homem morreu para realizá-la.

Os parentes são apenas um monte de gente maçante que não tem o menor senso de como viver, nem a mais pálida idéia de quando morrer.

Desta forma, o paradoxo vai contrario a opinião comum e rejeita as possíveis cancrizações.


[1] LEC, Stanislaw J. Pensieri spettinati(Milão: Bompiani, 1984) tradução de Eliana Aguiar, Record, 2006.

[2] FALZON, Alex. Os aforismos de Wilde.(Milão: Mondadori, 1986). tradução de Eliana Aguiar, Record, 2006

Os Aforismos cancrizáveis segunda-feira, abr 20 2009 

O termo aforismo cancrizável não foi encontrado durante a pesquisa dentro dos estudos brasileiros. Ao certo, não encontramos um estudo definitivo sobre a produção de máximas, aforismos ou paradoxos. De quando em vez, conseguiu-se reportar referências ao assunto em outras fontes, fora de Umberto Eco.

A análise do discurso, embora não utilize o termo apresentado por Pitigrilli – Aforismo cancrizável – apresenta conceitos que fazem sentido para explicarmos como se é possível uma análise mais ampla dos aforismos partindo deste termo.

Alem do mais, só se é possível reconhecer um paradoxo, através do mecanismo da cancrização dos aforismos, já que como veremos adiante, o aforismo paradoxal não pode ser cancrizado.

O aforismo quando vai de encontro à opinião comum, como a pouco analisávamos, se torna em virtude disso, espirituoso e, reconhecidamente belo. Tal como são os famosos ditados populares, espirituosos, esteticamente atraentes e dotados de recursos estilísticos, em busca de uma aceitação geral, e um reconhecimento de legitimidade do ponto de vista do interlocutor. Tal frase de impacto, gera no leitor uma animosidade correspondida, e o leitor, consegue chegar ao diamante do conhecimento sem percorrer as tortuosas sinuosidades das vias da erudição, e das leituras de montanhas de livros, em busca de uma verdade ou um argumento que justifique com prudência e lógica a sua opinião. Isso, de forma que o leitor ao perceber o brilho que emite a espiritualidade estética do aforismo, acaba por proclamar em seu interior, “justo, exatamente, concordo”.

No entanto, como o próprio aforismo popular nos sugere, “nem tudo o que reluz é ouro”.

Ainda do Pitigrilli, em tradução de Eliana Aguiar, citado diretamente em Eco temos com clareza uma noção do que se trata cancrizar alguns possíveis aforismos. Pitigrilli confessa, usar de um recurso falacioso na construção de aforismos. Pitigrilli é tido como um mestre em aforismos, “o homem que fez enrubescer a própria mãe”, e nos confessa neste parágrafo de seu aclamado Dizionario Anti-ballististico:

“Já que entramos no caminho das confidencias, reconheço ter apoiado o vandalismo do leitor. Explico-me: Na rua, quando explode uma briga ou acontece um acidente de trânsito, brota inesperadamente das vísceras da terra um indivíduo que tenta dar uma guarda-chuvada, em um dos dois contendores, geralmente o motorista. O agressor desconhecido desabafou o seu rancor latente. Assim nos livros: o leitor que não tem idéias ou as tem em estado amorfo, quando encontra uma frase pitoresca, fosforescente, ou explosiva enamora-se dela, adota-a, tece comentários com pontos de exclamação, com um “bom!”,“justo!”, como se tivesse pensado sempre assim e aquela frase fosse o extrato quintessencial de seu modo de pensar, de seu sistema filosófico. Ele “assume uma posição!” como dizia Duce. Eu lhe ofereço o modo de tomar posição sem descer à selva das várias literaturas.” (Milão: Sonzogno, 1962, p.198)

A sinceridade de Pitigrilli, nos arremata de imediato, ao poder que um aforismo tem, sendo legítimo ou falacioso, já que o leitor menos atento, jamais desconfiaria que o que parece justo, e bom a seus olhos, seja de fato uma brincadeira irônica de um autor que deseja parodiar as normas da boa ordem social. Porém “ao criticar sua Vis aphoristica, Pitigrilli nos diz algo mais, que muitos aforismos brilhantes, podem ser invertidos sem perder a força.” (Eco pg. 67 2003). E cita exemplos do próprio Pitigrilli, invertendo os seus aforismos, antes tidos como verdadeiros e absolutos.

Muitos desprezam a riqueza, mas poucos a sabem distribuir.

Muitos sabem distribuir a riqueza, mas poucos a desprezam.

Nesse caso, inverte totalmente o sentido, dando a opinião adversa, o exato contrário que argumentou anteriormente, nem por isso deixa de ser o aforismo menos verdadeiro ou espirituoso. O mesmo ocorre com outros exemplos de autoria de Pitigrilli;

A história nada mais é do que uma aventura da liberdade.

A liberdade nada mais é do que uma aventura da história.

A felicidade está nas coisas e não em nosso gosto

A felicidade está em nosso gosto e não nas coisas

Se repararmos bem, o aforismo comum, tende a poder ser cancrizado. Geralmente superficial sobre o tema abordado, além de legitimado por toda a maioria, tende muito mais a agradar e a convencer de determinada ideologia do que especificamente, em parecer verdadeiro diante de uma reflexão mais profunda.

Tende muito mais a ser o veículo ideal para a transmissão de ideologias como supõe a análise do discurso, do que um resumo filosófico de uma longa reflexão. Tampouco o aforismo comum, tende a emendar um ponto de vista em que a sociedade parece superficial.

O natural é que se repararmos com uma boa dose de astúcia o aforismo que vai contra a opinião comum, poderemos perceber que ele nada mais é do que uma cancrização de um aforismo comum. Se o povo comumente diz; – em terra de cego quem tem um olho é rei. – o aforismo cancrizado pode dizer, em terra de cego quem tem um olho é caolho.

Eco ainda abordando sobre os estudos de Pitigrilli sobre os aforismos, destaca outra curiosidade:

Ademais, ele listava máximas de autores diversos, certamente contraditórias entre si, mas que mesmo assim pareciam exprimir sempre uma verdade consolidade:

Só nos enganamos por otimismo (Hervieu)

Somos enganados mais pela desconfiança do que pela confiança. (Rivarol)

Os povos seriam felizes se os reis filosofassem e os filósofos reinassem. (Plutarco)

No dia em que quiser castigar uma província, eu a farei governar por um filósofo. (Frederico II)

Usarei para esses aforismos invertíveis o termo aforismo cancrizável. (…) Uma máxima que embora pareça espirituosa, não se importa que seu oposto seja igualmente verdadeiro.

(ECO, 2003, p.68)

Pedra da magia sexta-feira, abr 17 2009 

Pedra da Magia

Havia uma pedra que se chamava Magia.

Havia, entre o caminho da testa à Peixoto,

Um ponto de encontro maroto,

Rodas de conversas, de frente ao esgoto,

Que na baia de vitória desaguaria.

—-

O esgoto continuaria a enegrecer a baia

Em baixo da terceira ponte triste

Sobre o vento sul forte e riste,

Despedaça ao olhar que insiste

A bela cena que ali havia.

—–

Hoje há o crescimento econômico em via

No lugar da pedra de passagem

Cimento, concreto e garagem

Um dia o que já foi uma margem

De um riacho que esgoto seria.

———–

Pois não atravessemos mais a magia

Que circulemos as rotas internas

Que sentemos a conversa em tavernas

que plagiaremos as letras eternas

que no meio do caminho uma pedra havia.

Praia da Costa sexta-feira, abr 17 2009 

Joga-te no mar com corpo suado,

Cansado de bola, o bom futebol.

É roxo ou dourado o rubro arrebol

—-

Sente o gelado do atlântico sul

Descer as entranhas do teu langor,

A alma entrando no mar chorou.

—-

O vento lá fora, é frio e direito,

O mar é macio, é mistério e calmaria,

A luz do calçadão reflete a maresia.

———

Ao cair da noite, praticam esportes

Caminham a orla, os seus moradores,

Se sentam na areia jovens senhores.

——-

Quisera merecer amor da paisagem;

Belas jovens desfilam sorrisos,

Corpos, cabelos, olhares omissos;

——-

Montam perto dos barcos o comércio,

Passeando, comprando a orla se enche,

Desfilam na área a maioria crente.

—-

Quando olhamos o mar vemos a cena

Malucos caminham em cinco para a areia,

Caminham da asa delta até a sereia.

——-

A praia é rotina é vida e marasmo

É futuro e atraso, é nobre dilema:

Contemplar a praia ou culpar o sistema ?

Pensamento crítico e a sua interpretação. sexta-feira, abr 17 2009 

Freqüentemente encontra-se em Paulo Freire o termo pensar certo. O pensar certo que emana uma estratégia crítica de pensamento, um pensamento autônomo, livre, e consciente:

“Como manifestação presente à experiência vital, a curiosidade humana vem sendo histórica e socialmente construída e reconstruída. Precisamente porque a promoção da ingenuidade para a criticidade não se dá automaticamente, uma das tarefas precípuas da prática educativo-progressista é exatamente o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil. Curiosidade com que podemos nos defender de “irracionalismos” decorrentes do ou produzidos por certo excesso de “racionalidade” de nosso tempo altamente tecnológizado. E não vai nesta consideração nenhuma arrancada falsamente humanista de negação da tecnologia e da ciência. Pelo contrário é consideração de quem, de um lado, não diviniza a tecnologia, mas, de outro, não a diaboliza. De quem a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa.” (Freire 1996; p. 32)

Bem, o pensamento certo, segundo a ótica freiriana, é um pensamento que demanda reflexão. Curiosidade. Se aliarmos o estudo das máximas, como um estudo de como o pensamento da humanidade se construiu ao longo do tempo, e nem sempre buscarmos nas máximas as verdades que podem trazer(buscamos muito mais as falsas verdades muito mais), mas buscarmos através dela pensar e refletir sobre determinado tema. Pois com a máxima, temos a mais pura reflexão.

Se encararmos as máximas, como um fenômeno fechado e verdadeiro, cometemos este pecado para com o pensamento crítico. Quando reconhecendo mecanismos, tentamos inverter as possibilidades de alcance de uma máxima, podemos não apenas ponderar o valor humano da qual é carregada a sentença, mas, sobretudo exercitar a autonomia de escolher no que se acredita, e não simplesmente se render a brilhantismos estéticos.

Quando ouvimos um discurso político, dizendo um aforismo cancrizável, podemos perceber que se ele é verdadeiro, é apenas em uma parte.

Quando um slogan publicitário parece algo de mais profundo e verdadeiro, a mínima reflexão que cancrizar a sentença reconhecerá uma falácia bem elaborada.

A vida exige as vezes que interpretemos situações, já que defendendo nossa autonomia, defendemos nossos direitos. É fácil dizer que devemos interpretar, o mais difícil talvez seja como faze-lo, sobre isso Fiorin se posiciona de maneira clara:

“A escola ensina os alunos a ler e a escrever orações e períodos e exige que interpretem e redijam textos. Algumas pessoas poderiam dizer que essa afirmação não é verdadeira, porque hoje todos os professores dão aulas de redação e de interpretação de textos. Mas como é uma aula de redação? O professor põe um tema na lousa, pede que os alunos escrevam sobre ele, corrige os erros localizados na frase. A aula de interpretação de texto consiste em responder a um questionário com perguntas que não representam nenhum desafio intelectual ao aluno e que não contribuem para o entendimento global do texto. Muitas vezes, o professor não se satisfaz com os textos e os roteiros de interpretação dos livros didáticos, seleciona algum texto e faz uma bela interpretação em classe. Se o aluno lhe pergunta como enxergar numa produção discursiva as coisas geniais que ele nela percebeu, costuma apresentar duas respostas: para analisar um texto, é preciso ter sensibilidade; para descobrir os sentidos do texto, é necessário lê-lo uma, duas, três, inúmeras vezes.

As duas respostas estão eivadas de ingenuidade. Não basta recomendar que o aluno leia atentamente o texto, muitas vezes, é preciso mostrar o que se deve observar nele. A sensibilidade não é um dom inato, mas algo que se cultiva e se desenvolve.” (Fiorin, 2008. p. 9)

Quais então seriam os pontos importantes a serem mostrados na escola ? as verdades acabadas ? ou a reflexão crítica em cima delas ? se aceitamos sem crítica alguma argumentos históricos, sofremos a conseqüência de nos tornarmos presos a uma ideologia, que muitas vezes não condiz com nossa ideologia.

Deste modo, quando pensamos em escolher frases vitais que ilustram nossas sociedade, e através dela partirmos para exemplificações, críticas, contra-argumentações, exercitamos assim o maior dos defeitos do brasileiro, uma herança do analfabetismo funcional que cultivamos ao redor da história.

Freyre[3](2006) comenta acerca da formação histórica do povo brasileiro. Em uma de suas passagens levanta uma visão que representa a origem histórica de nossa educação, e os mecanismos aos quais subordinadas.

Descreve Freyre que não há uma questão de reflexão nacional, mas um modelo sádico que apenas representava institucionalmente a escravidão. As crianças sofriam violências físicas se tentassem por exemplo, inverter uma máxima de Santo Agostinho.

Em Hollanda[4]é evidente que no pensamento do autor, uma herança medieval ibérica, herança que não vê no sacrifício do trabalho a legitimidade da moral, mas na facilidade da aristocracia, a verdadeira fonte da virtude.

De tal forma, comparando o que foi lido em Raízes do Brasil, com a situação aqui discutida, podemos retirar que essa tradição ainda permanece em grande parte como uma característica do povo brasileiro. A forma aqui, vale mais que o conteúdo, a aparência muito mais do que a essência, o ato do que o espírito. Assim o dever de uma máxima, no que podemos interpretar dos dois importantes homens que trataram de nossa história, é que as máximas são exigidas mais como um intrumento de imposição do que de reflexão crítica.

Se estamos aviltados a essa obediência baseada na tradição da força física, não poderemos nos espantar com resultados catastróficos de nossa educação. Há um elo muito estreito entre sociedade e educação, como confirma Rios[5]

“Para falar da educação enquanto fenômeno histórico e social, é preciso que se percorra brevemente o caminho de uma reflexão sobre a cultura, na medida em que se pode afirmar – recorrendo-se a uma definição extremamente abrangente- que educação é transmissão de cultura. (…)

“A cultura pode ser definida, em primeira instância, como mundo transformado pelos homens. Se vamos partir daí, é preciso fazer referência às relações dos homens com essa realidade que os cerca e da qual eles fazem parte e que se chama mundo.” (Rios; 30)

E mais adiante, ainda sobre o mesmo tema:

“A relação escola-sociedade deve ser analisada de modo crítico, para que se evidenciem os mecanismos determinantes da prática educativa. A análise crítica nos levará a constatar a existência de posições diferentes no que diz respeito àquela relação.” (Rios 36,37)

Até concluir:

“Uma vez que a escola não tem sido nem eficiente nem eficaz, é necessário refletir para que se encontrem caminhos para sua transformação. Um deles é a visão crítica do educador sobre seu papel enquanto um dos elementos que constituem o processo educativo. O que se espera, então, do educador ? o que lhe compete, na construção da escola e da sociedade? quais são os traços distintivos da sua competência enquanto profissional da educação?

Para responder a estas questões é preciso recorrer à reflexão filosófica, destacando no trabalho dos educadores a dimensão ética como instância de resgate da compreensão do significado político de sua ação.” (Rios; 44)

Rios, então nos indica que sem essa visão crítica, de toda a sociedade não poderemos de maneira alguma exercer, uma educação de qualidade. As máximas, aforismo e paradoxos, podem ser um como resolver esse problema, já que vão estar trabalhando com tudo aquilo que foi posto como o grande problema do ensino, ou o problema pai de todos os outros problemas. A não proficiência interpretativa e crítica da língua.


FREIRE, Paulo; Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à pratica educativa- São Paulo : Paz e Terra, 1996.

FIORIN, José Luiz. Elementos de análise do discurso. 14. ed. , 1ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2008.

FREYRE, Gilberto; Casa Grande & Senzala: Formação da família brasileira sobre o regime da economia patriarcal-51ª ed. rev. – São Paulo: Global, 2006.

[4] HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil- 26. ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[5]RIOS, Terezinha Azerêdo. Ética e competência. 16. ed – São Paulo, Cortez, 2006.- (Coleção Questões da Nossa Época; v.16)

Sobre algumas funções da literatura. sexta-feira, abr 17 2009 

Existem valores imateriais não avaliáveis a peso, mas que de certa forma pesam. Estamos circundados de valores imateriais que não se limitam apenas àqueles chamados de valores espirituais, como uma doutrina religiosa.

Entre esses valores imateriais, temos o da tradição literária, ou seja, o complexo de textos que a humanidade produz e produziu, “não para fins práticos (como manter registros, anotar leis e fórmulas cientificas, fazer atas de sessões ou anotar horários ferroviários) mas antes gratia sui, por amor de si mesma – e que se lêem por deleite, elevação espiritual, ampliação dos próprios conhecimentos, talvez por puro passatempo, sem que ninguém nos obrigue a fazê-lo(com exceção das obrigações escolares).”

É verdade que os objetos literários são imateriais apenas pela metade, pois encarnam-se em veículos que, de hábito, são de papel. Mas há ainda recordações do tempo da tradição oral, ou de quando escreviam em pedras, e mesmo ainda com o fenômeno da Internet, o livro eletrônico (E-book). Se as futuras gerações preferirem ler o Dom Quixote em uma tela de cristal liquido, o poder da obra não mudará, e será de muito proveito para suas mentes, e nem tanto para suas vistas.

Para que serve então esse bem imaterial que é a literatura? Poderia dizer novamente, que pra nada. Mas uma visão assim deixaria a literatura comparável aos jogos ou as palavras cruzadas, ambos que aliais servem pra alguma coisa, seja a saúde física, seja a educação léxica. Podemos destacar funções que a literatura assume para a vida individual e social.

A literatura mantém em exercício, antes de tudo, a língua como patrimônio coletivo. A língua vai para onde quer, mas é sensível às sugestões da literatura. A literatura contribuindo para formar a língua cria identidade e comunidade. Basta pensar o que seria do italiano sem Dante, do português sem Camões, da identidade alemã sem a tradução da Bíblia feita por Lutero, a civilização indiana sem seus poemas fundadores.

Há ainda, além do exercício da língua, a função educativa da literatura, que não se resume à transmissão de valores morais ou à transformações do sentido do belo. A função educativa primordial, é que depositamos investimentos passionais nos seres imateriais pertencentes ao mundo literário, e a partir disso, criamos desejos e expectativas correspondentes ao seu desfecho. Qualquer coisa que ocorra na obra, não assume o simples valor de uma noticia, mas é uma descoberta de que as coisas acontecem além dos desejos do leitor. O leitor tem de aceitar essa frustração e experimentar o calafrio do destino. E assim qualquer que seja a história que estejam contando, contam também a nossa, e por isso lemos e amamos esse bem imaterial que é a literatura.

A literatura ensina também a morrer e creio que essa seja a principal função educativa da literatura. Talvez existam outras.

A alma humana e o dinheiro. sexta-feira, abr 17 2009 

A humanidade vive um dilema auto-antagônico em relação a si mesmo. É o homem o seu lobo, esterco e defeito, e é ao mesmo tempo esse homem a razão e o espírito. É a idéia e os sentidos, é o bem e o mal. Mas como pode o homem ser o que não é, e como algo que não é pode ser o que não há? O espírito humano, ou a dita “anima”, nada mais é que um conceito humano de autodefinição. Um conceito infundado.

Partindo do principio que anima é o que dá movimento as coisas brutas, as coisas brutas tem anima. Então a matéria vida volta a se tornar tão fina. Não se difere mais o que se tem vida do que não se tem, de modo que a alma é uma convenção humana, tal como todas outras verdades.

Não temos alma, não temos espírito, não temos arbítrio, muito menos arbítrio livre; não temos liberdade. Nenhuma teoria maior do mundo, que dependa de uma gravidade explicativa à níveis universais, seria capaz, de resistir a verdadeira grandeza do mundo real sobre o das idéias.

Num panorama mais claro, o homem que é vilão de si mesmo, teoriza sobre si mesmo, que não é ele um componente de um todo, e que nesse todo está inserido, e por ele sendo modificado. O que o torna em parte muito mais um modificado que um modificador.

Crê em sua profunda imaginação, que a vida tenha lá alguma importância em meio a tanto vácuo e tão pouca poeira espalhada nesse vácuo. Crê ainda, de tão centralizador de conceitos em pequenas partes, que é capaz de deduzir, de sua importância gratuita ao resto dos elementos materiais e imateriais do restante do cosmos, que partindo dessa importância, cada tipo de vida classificada como humana é mais especial ainda.

Dada essa especialidade da essência humana vinda da especialidade da essência viva, vinda de especialidade da essência matéria, ao meio a um buraco de nada, o homem se vê como uma coisa muito importante no universo. Vê que essa vida é passageira e que no fim do aprazível percurso, quando morre, deixa o mundo da matéria e parte pro mundo das idéias, e fica lá num infinito psicológico, justo com suas coerências e decisões, e tomadas de atitudes durante a dita vida.

Raciocínio este que de tão infundado, afunda-se em si mesmo, mas ao mesmo ridículo tempo, consegue convencer uma unanimidade, e ser uma verdade auto-proclamada do universo humano. Todo homem acha que é uma parte, acha que tem uma alma, que tem algum motivo maior. Que existe o mistério.

Cria-se um mistério, de um conceito, e diz, eis aqui um mistério sem resposta. Um ponto intocável e indiscutível. Oras, se é indiscutível inicialmente logo indica que de nada serve, pois as decisões são dialogadas quando precisam de soluções coletivas, a alternativa de hipóteses descartando as medíocres e valorizando as fortes, tal como fazem a matéria viva, tal como faz a matéria. Se não existe matéria forte ou fraca, estamos discutindo o vácuo.

O homem enfim é um ser vivo dependente de um fator criado por ele mesmo. O dinheiro. O dinheiro determina suas principais atitudes individuais, e o dinheiro, sem cérebro, governa o cérebro humano. O dinheiro cria então os desejos em um homem que de desejos passa a ter necessidades, as vezes umas vontades, e necessidades e desejos. E o dinheiro. O dinheiro que compra o homem, que vende o vento, que alisa a testa morta, e que cospe conceitos no universo. O dinheiro que constrói igrejas, prostíbulos, cadeias, infernos e céus. O dinheiro que vende almas, o dinheiro que compra o espírito, o dinheiro que é o predador do reino animal. O homem não tem alma, e o homem não tem dinheiro, a alma do dinheiro é que tem o homem. Dinheiro tem alma, homem não.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.