Quando o aforismo vai violentamente contra a opinião comum, de tal modo que à primeira vista parece falso e inaceitável, e só depois de uma judiciosa redução de sua forma hiperbólica parece portador de alguma verdade, aceitável com esforço, temos então o paradoxo.
“Etimologicamente é paradoxo aquilo que vai parà ten doxan”,(ECO,2003 p.65) isto é, alem da opinião comum. Portanto, o termo originalmente buscava explicar alguma opinião distante da crença de todos, estranha, bizarra, inesperada.
Os paradoxos da lógica ocupam um lugar de destaque, por serem afirmações auto-contraditórias, “das quais não se pode provar nem verdade nem falsidade”.
Eco não especifica de onde ele retirou essa definição, apenas diz ser de um filólogo denominado Battaglia, sem citar página, ano ou editora. No entanto, a definição é esclarecedora a cerca do paradoxo
Tese, conceito, afirmação, sentença, piada, no máximo formulada no âmbito de um discurso ético ou doutrinário, que contrasta com a opinião difusa ou universalmente aceita, com o bom senso e a experiência comuns, com o sistema de crenças a que se faz referência ou com princípios ou conhecimentos que são dados como adquiridos ( e com freqüência não possui valor de verdade, reduzindo-se a um sofisma, criado por amor de excentridades ou para dar mostras de habilidade dialética; mas pode também conter, sob uma forma aparentemente ilógica e desconcertante, um fundo de validade objetiva destinado a afirmar-se contra a ignorância e a precipitação de quem segue acriticamente a opinião da maioria.
“A história da literatura é rica em aforismo e um pouco menos rica de paradoxos” obviamente pelo grau de dificuldade da construção de cada sentença. Um autor que consegue extrair paradoxos de suas reflexões é porque aprofunda um assunto muito alem da perspectiva comum, ou da simples inversão dessa perspectiva.
O aforismo paradoxal por sua vez, não pode ser cancrizado. Seu oposto quando invertido, chegam em uma oração sem sentido conexo com a realidade.
PARADOXOS
Novamente recorrendo ao artigo de Umberto Eco temos exemplos de dois grandes autores de paradoxos, o primeiro é J. Stanislaw Lec.[1]
Se se pudesse descontar a morte dormitando-a em prestações!
Sonhei a realidade ! que alivio despertar.
Abra-te Sésamo- quero sair !
Quem sabe o que Colombo não teria descoberto se a América não tivesse barrado seu caminho!
Horrível é o babador espalmado de mel.
O camarão enrubesce depois da morte. Que fineza exemplar, em uma vítima.
Se pretendeis derrubar os monumentos, poupai os pedestais. Sempre podem servir.
Possuiu a ciência, mas não a deixou grávida.
Em sua modéstia considerava-se um grafômano. Ao invés disso, era um delator.
As fogueiras não iluminam as trevas.
Pode-se morrer em Santa Helena sem ser Napoleão.
Abraçaram-se tão apertado que não sobrou espaço para os sentimentos.
Apergia a cabeça com cinzas de suas vítimas.
Sonhei com Freud. O que significa ?
Freqüentar anões deforma a espinha dorsal.
Tinha a consciência limpa. Nunca usada.
Mesmo em seu silêncio havia erros lingüísticos.
Lec invertendo a situação comum, acaba por em todos os exemplos demonstrados criar um paradoxo. Oscar Wilde[2], também é autor de alguns paradoxos autênticos e podemos tentar com o método de cancrizar reconhecer a legitimidade :
O egoísmo não consiste em viver como nos parece, mas em exigir que os outros vivam como nos parece.
É muito mais prudente pensar mal de todos até que, naturalmente, se descubra que uma pessoa é boa, mas hoje em dia isso exige uma série infinita de investigações.
O feio e o estúpido passam melhor do que os outros neste mundo: podem permanecer sentados confortavelmente e seguir a comédia de boca aberta. Nada saberão da vitória, mas é-lhes poupada a experiência da derrota.
Uma pessoa sensível é aquela que, tendo calos, pisa sempre os pés dos outros.
Todos aqueles que são incapazes de aprender são postos a ensinar.
Toda vez que as pessoas estão de acordo comigo tenho a sensação de estar errado.
Um homem falado tem sempre alguma coisa de atraente.
Afinal, ele deve ter alguma coisa.
Todo grande homem hoje em dia tem os seus discípulos, e é sempre Judas a escrever-lhe a biografia.
Posso resistir a tudo, exceto às tentações.
A falsidade é a verdade dos outros.
O único dever que temos para com a história é o de reescrevê-la.
Uma coisa não é necessariamente verdadeira porque um homem morreu para realizá-la.
Os parentes são apenas um monte de gente maçante que não tem o menor senso de como viver, nem a mais pálida idéia de quando morrer.
Desta forma, o paradoxo vai contrario a opinião comum e rejeita as possíveis cancrizações.